O SONETO E O LIVRO A JANELA DO
SÓTÃO
não sei o que percorre
a ciência dum sonetista ao produzir (ou entrar em estado
de produção de) sua arte. nos demais poetas, cônscios,
percorrem técnicas de produzir sonetos. a princípio
é postulado a todos poetas, sonetistas ou não,
a insistente constância de criar, seja sob originalidade
singular na maioria dos aspectos que se propõe a conceber
(ou apenas nos aspectos estilísticos), ou sob paráfrase
implícita (uma vez não mero reprodutor de imagens
e/ou vislumbrador de paisagens), ou sob transgressão
de tradições (para novas conquistas dentro do
conhecido ou por evasão de conceitos).
em seguida, é inevitável percorrer o poeta, sempre
cônscio, os modelos clássicos de soneto, seja sob
a forma italiana (dois quartetos e dois tercetos, e sua inversão
espanhola, dois tercetos e dois quartetos) ou sob a forma inglesa
(uma duodécima e um dístico). daí, as acepções
conquistados, das medidas decassilábicas sob heróicos
ou sáficos, ou mesmo livres (qual fez Vinícius
de Moraes, por exemplo), quanto das medidas alexandrinas quanto
das nuanças septassilábicas. ainda sobre as possibilidades
estruturais, incorrem as rimas abba abba cde cde, abba abba
cdc dcd etc. o que se considera, e mais importa, é que
o soneto é sempre formal, embora não seja cruamente
aquela forma lírica completamente fixa, há de
se considerar que produzir um soneto numa estrofe de catorze
versos chama atenção a uma consideração
que se diga de avulsa, na contemporaneidade. produzir sonetos
transcendeu, assim, a desenvolver um poema formalmente premeditado
pelo qual se apresente uma introdução (ou proposição),
um desenvolvimento e uma conclusão (vezes por outra com
desfecho temático ou chave de ouro no último ou
dois últimos versos), mesmo a metro livre e rima branca.
independente da forma que se apresenta, mesmo ciente de que
sempre formal é o soneto, a sua chama de atenção
me é reportada pelo enjambement, que Rimbaud e Jorge
de Lima tão bem praticaram, a exemplo. contudo, não
tão avultamente quanto nosso Aroldo Ferreira Leão.
Aroldo, expressivamente geométrico qual os poetas cubistas
(Pessoa, a priori) e duma matematicidade filosófica notória
deixa isso bem determinado em a janela do sótão,
sua recente coletânea de sonetos.
A morte
Sem norte
Nem sul
É azul
Escura.
A agrura
Do medo
Vem cedo
No mar
De um ímpar
Desejo
Parado
No nado
Adejo.
|
(a morte in a janela do
sótão, p. 86)
Jamesson Buarque