A pata da barata insensata
JAMESSON
BUARQUE
Impossível compreender
Nossa maldade caolha,
Evoluir em paz,
Digerir, com mais entusiasmo,
A civilização.
[Aroldo Ferreira Leão]
Nada
mais doméstico na urbanidade do que uma barata. Sempre
pensei que reside em tudo, orgânico e inorgânico,
alguma poesia. Por que não, pois, nas baratas? Se pretendesse
falar fenomenologicamente – como muitas vezes me é
de grado, ou até mesmo como, de certo modo, inevitavelmente
terminarei falando aqui –, buscaria, pela famosa redução
de E. Husserl, descrever o que nas baratas faz delas barata.
Mas o que se me agrava – senão revela – é
saber o que nas baratas (ou em uma dada barata) faz dela(s)
gente. Certo esteja que não estou querendo “descobrir
o sexo dos anjos”, mas travar algum diálogo com
o pensamento poético de Aroldo Ferreira Leão em
seu livro de agosto/2001 que tem o título deste artigo.
Começo confessando meu comportamento, digamos, semiósico
imediato à recepção do livro pela leitura
do título. A pata da barata insensata, sobremodo, provocou-me
uma percepção – não fosse o impressionismo
da capa – de um livro infantil. Seria de poemas? Era-o.
Mas não infantil, infanto-juvenil, ou coisa que o valha.
Mas logo os trinta movimentos romanamente numerados me aquietaram
daquela percepção. Outro enfrentamento semiósico:
Aroldo estaria narrando algo acerca de seu “herói”,
a pata? Gosto, evidentemente, dessas percepções
ingênuas, principalmente porque me evitam inferências
falseadas do que leio. Portanto, não era aquilo –
ufa! Li o livro como quem toma morosamente cálices de
um bom vinho. Mas não percebi a barata. Pior, sequer
percebi a pata. Sobre insensatez? O poema está revestido
disso em sua elocução. Digo poema porque considerei
acima que tem trinta movimentos, e de fato o tem, logo, o livro
de Aroldo é um único poema dividido em estâncias
independentes e coesas entre si. Mas, como pode está
revestido de insensatez e não haver barata, e principalmente
a pata? Eis minha investigação e mais uma delícia
de ler um novo Aroldo Ferreira Leão.
O pensamento poético de Aroldo tateia até na escuridão
em busca de uma obra literária que seja grandiosa, não
necessariamente em número de livros, mas principalmente
em força de palavra de dizer poesia. Ele é completamente
viciado em criar poemas, em compô-los, em arranjá-los
em medidas diversas, em não suscitar imagens, mas provocar
sobremaneira atitudes de reflexão no leitor, como olhar
para o próprio umbigo, de repente perguntar-se se está
vivo ou morto, perguntar sobre a passagem do tempo sobre nosso
espírito, inclusive inquirir se há em nós
algum espírito, e consegue assim permitir que o leitor
enfrente sua metamatéria, sendo não um existencialista,
mas um essencialista. Então já conhecendo o caráter
desse pensamento tanto agoniado quanto prudente, perguntei-me
porque não consegui perceber o que havia de provocação
em A pata da barata insensata. Para mim, insistidamente, a pata.
É-nos mecânico, em crítica, apostar que
há um “herói”, ou leitmotif, transportado
no substantivo principal do título de um poema, sempre
elemento catafórico. Certamente, se os títulos
não fossem catafóricos, sequer seriam títulos
– esta é sua essência. Mas o que suporta
cataforia foi levado a uma conseqüência muito elevada
pela metáfora no título do livro de Aroldo. Sucede,
pois, que de fato não há a pata nem barata. Há
que o que procurei como pata são os passos, passos que
damos durante nosso percurso em vida, procurando acertar onde
pisamos para sermos o que somos. Logo, barata somos nós
mesmos, cada um. Assim, insensatez é não nos darmos
à paciência do amor que é aceitar o outro,
o diferente, que também barata, é gente. O poema
não é narrativo, mas tem uma construção
muito plural, como começar o primeiro movimento com uma
voz poemática observadora, ou seja, que fala da terceira
pessoa; seguir do segundo ao quarto movimento em primeira pessoa
plural; voltar a falar da terceira pessoa no quinto movimento,
transitando para a segunda pessoa; seguir no sexto movimento
para a primeira pessoa singular, alcançando o lirismo
de dizer “… em mim,/ …Fantasmas … me
cercam…/ De…/ Verdades que doem…”; e,
pois, voltar para a terceira pessoa transitando para a segunda,
e assim variavelmente.
Do modo o aspecto polifônico do poema de Aroldo é
bastante rico, e assim nos permite identificarmo-nos com diversos
dos elementos actanciais que há no mundo real diariamente,
de maneira operacional, como as baratas na casa de cada um de
nós que vivemos nas cidades deste início de século
XXI em um país do dito Terceiro Mundo, no lado ocidental
do planeta. Que gênio poético permitiu a Aroldo
a figuração tão trabalhada, senão
espontânea, de seu poema, não nos vem ao caso,
vem-nos, outrossim, que conforme nosso poeta segue em sua procura
e/ou busca, nós nos arrastamos no ermo, cavando solidão
dentro de nosso peito, e edificando um casulo eterno para resolvermos
nossos problemas enquanto o outro, inevitavelmente a nosso lado,
padece de dores parentes.
Algumas passagens, entre tantas, do poema de Aroldo nos dizem
isto com a lucidez de sua metáfora reflexiva, como:
MOVIMENTO |
PASSAGEM |
| I |
Difícil compreender
as pessoas |
| II |
Algo de podre
passeia por nossas almas |
| IV |
Estranho não
nos entendermos |
| V |
O medo que destrói |
| VII |
A morte, senhora
de hálito insosso |
| VIII |
Remo contra uma
maré |
| IX |
Momento de vidas
mortas |
| X |
Degredos que sufocam |
| XI |
A vida…/
Nos alicerça nas incertezas |
| XIV |
Ó corte
que sangrando não sangra |
| XVI |
Pobres homens sempre
correndo |
| XVII |
Reflete o eco
de vozes distantes |
| XXI |
De assobios dados
por bocas/ Desalinhadas e mudas |
| XXIII |
Teimoso ser rondando-se/
Procurando-se sem parar |
| XXIV |
Vício de olhar
a morte/ Com os olhos da vida |
| XXVII |
Meio morto, meio
nada, sigo |
| XXIX |
Ó dores indefiníveis |
| XXX |
Refazer caminhos
e pegadas/ Tateando na escuridão |
Com movimentos que oscilam entre
quatro e oitos versos divididos sintagmaticamente A pata da
barata insensata, este poema que provoca uma leitura imediatamente
semiósica – na acepção de U. Eco,
de leitura “ingênua” –, mas que intriga
e se garante apressada, ou seja, algo que precipitada, dada
a falseamentos, chamando, pois, a uma conseqüente leitura
semiótica (“crítica” – ainda
cf. U. Eco), pela qual reconhecemos o velho Aroldo nos considerando
pela nossa metamatéria, possibilitando um modo de olharmo-nos
como perante a um espelho de acusar nossos defeitos e falhas
tão insistentes de ausência de irmandade. De sermos
insetos, então, embora não tenhamos o corpo imago,
é certo que é uma metáfora, mas de metáfora
em metáfora a metamorfose kafkeana pode nos acordar algum
dia Gregor Samsa, como essa alegria estuporosa que sequer acreditamos
vacilar de nossas atitudes diariamente, (quase – senão)
como inseto doméstico, que encontra abrigo na sombra
e na lama dos pisos das casas, devido nossa precária
sanitaridade ou nossa mais precária sanidade. É
assim, portanto, que Aroldo insiste: “Sou a eternidade
que/ Ainda não se achou,/ O sonho, que solto/ Em si mesmo,/
Definiu-me só”.
GOIÂNIA, FEVEREIRO
DE 2002.