COMENTÁRIO
SOBRE O LIVRO SILÊNCIOS ATEMPORAIS
Tarefa
difícil comentar os textos de Aroldo Leão, aqui enfeixados à
guisa de crônicas. Na realidade eu os vejo como um caleidoscópio
de reflexões íntimas. Não foi intenção do autor elaborar observações
amenas e despretenciosas. Percebe-se claramente um propósito
definido e irreversível de analisar, com o máximo de verticalidade,
o lado sombrio da natureza humana, as tendências malévolas que
se consubstanciam nas inclinações e procedimentos reveladores
do individualismo exacerbado. Na aparência não há novidade,
mas os temas são expostos como uma redescoberta, segundo a óptica
da sensibilidade poética insultada e ferida. Predomina o gemido/grito
de uma dor que se faz profunda e quase despida de esperança.
Seus escritos figuram uma orquestração sustentada por instrumentos
da decepção, do desespero, do medo. Evidencia-se a revolta face
à desumanização, ao apagar das consciências. São muitos descaminhos
que confluem para uma encruzilhada obscura, bifurcação trágica
e definitiva. Dois rumos se opõem, acenando para o futuro, um
deles trabalhoso e estreito, pouco atrativo. O outro, espaçoso
e convidativo, sem desafios. Sem nada. Gente humana é mais propícia
às andanças descomprometidas, mesmo sendo preciso esmagar os
trôpegos, os cansados e oprimidos. Importa alcançar objetivos,
sem olhar de lado. Parece-me que os “Silêncios Atemporais” abordados
por Aroldo sobrevoam a rota dos que têm pouca – ou nenhuma –
fé, surdos aos apelos enrouquecidos, aos gritos de socorro,
que rotulam de fatalismo o milenar estigma dos excluídos. São
criticas amargas e pessimistas, plenas de aguilhoadas ferrenhas,
denunciando que “algo podre adormece em nossos corações”. Vez
por outra, como em “A Vida Cansa”, divorciado de pudores falsos,
libera seus demônios interiores com a mesma tranqüilidade que
deixa escapar do inconsciente as confissões de perturbações
espirituais temporárias, assumindo a “sina dos indivíduos complexos
e perplexos diante dos mistérios de si mesmos”. Em última análise,
“Silêncios Atemporais” representa, no meu entender, uma tentativa
de expor, a partir da vivência pessoal, da observação e mesmo
da catarse envolvida, a fragilidade da natureza humana, o vazio,
a solidão, o desconhecimento do verdadeiro sentido da vida,
circunstâncias que atormentam e em geral conduzem ao egoísmo
desenfreado, resultando na busca de valores questionáveis de
grandeza menor. Quanto à estrutura, o que poderia aparentar
jogo de palavras, funciona como prosa poética valorizando a
retórica incomum dos dias atuais. Construções labirínticas,
linguagem rebuscada, involuntária – creio eu – cadência, expressões
líricas e rimas inusitadas, representam, por certo, o caminho
escolhido pelo autor. Neste caso é possível detectar um a proposta
deliberada para suscitar o estranhamento que obrigue o leitor
à retomada de cada frase, perseguindo o elo de ligação, o fio
condutor adequado. Avesso a louvações, também não pretendo induzir.
Cabe ao leitor penetrar nos meandros do que intenciona Aroldo,
acompanhar a tessitura do seu pensamento e tentar, a partir
da reflexão crítica, o seu próprio exercício de liberdade interpretativa,
que é uma prerrogativa da literatura.
José Américo de Lima