| Aroldo de Poemas
Pejado
Empurrados
num canto do céu, as fatias glaciais de água condensada - cirro
em formação precipitáveis (diria Aroldo Leão em sua eloqüência
verbal), as nuvens engravidam-se de chuvas e caem lambendo as
entranhas da terra.
Há homens que são nuvens intentando alumiar o mundo com seus
lampejos internos. Condição primeira para se tornar um homem-nuvem,
e carregada, é querer arrebatar-se de sonhos. Os sonhos potencializam
o homem para construir, e ele mesmo, o sonho, já é, em si, adiantada
parte da ponte para outra margem. O homem vale pelo que sonha.
Uma nuvem é Aroldo Leão, e de raios poéticos carregado e quer
inundar o planeta com chuvas de poemas. Pretensioso? E por que
não sermos pretensiosos? Acaso não é a esses pretensiosos que
devemos a justificativa da nossa grandiosa condição de seres humanos?
A quem mais, senão a eles, devemos as realizações máximas de nossas
capacidades? Pirâmides, Jardins da Babilônia, Torre Eiffel? E
a Eneida, a Divina Comédia, Os Lusíadas, Fausto? E os grandes
esforços espirituais e filosóficos de pacificar a besta feroz
que habita em nós? Querer abraçar o mundo com as próprias mãos
é pretensão de poucos. Pobre dos muitos que não visualizam outras
margens e nem planejam pontes. O homem vale pela prática de seu
sonho.
Aroldo Leão parece apercebido dessa máxima e não se permite descansar
na construção de sua obra. Há nele um frenesi, uma pressa, uma
urgência. Assim é que, de 1995 até o dia 08 passado, em que publicou
Sisuda Acidez, ele precipitou cinco livros. Os outros foram: A
Trilogia da Dor, Carta a Tio João Cordeiro, Alfabetizando a Alma
e Presságios. E o tempo não se alongará muito até o próximo lançamento.
É que A Janela do Sótão, seu sexto livro, já está no prelo.
Bem singular é a presença de Aroldo entre nós. Vivendo nessa parte
do mundo em que as condições naturais, por si, já dificultam a
construção dos ideais, agravada pelo comodismo das pessoas que
se especializam em lamuriar, praguejar contra o sol que arde e
a chuva, quando chuva há e a maquiavélica engrenagem dos aparelhos
sociais, ele segue intrépido, obstinado na realização de seus
sonhos poéticos. Os sonhos são mistos de individualidade e coletividade:
deles nascem os povos.
Aroldo é um signo ambulante. Profundamente apaixonado pela arte,
irradia-a e contagia com sua fé quem próximo lhe estiver. Ele
faísca. Suas mãos voam. Costurando ou descosturando assuntos díspares,
constrói verdadeiras colchas-de-retalhos de argumentos que, sem
a obrigação de se concluírem, mas parece um pretexto que ele utiliza
para estudar em si mesmo uma arte que ainda não, parece-me, praticou:
o teatro, pois, como um ator oriental-brectiano, ele se auto observa
e até comenta embevecido a elevação nobre de suas palavras e pensamentos.
Narcisista, é-lhe uma definição adequada, embora soe depreciativa
nesses tempos em que os artistas descrêem da potencialidade da
arte em operar na vida, no mundo, e se reclusam numa insossa falsa
modéstia (pedantismo invertido).
No entanto é de se surpreender que artista tão luminoso e leve
nos contatos pessoais, construa uma obra em que tão freqüentemente
ecoa uma desesperada, mas não revoltada, dor metafísica, quase
fútil e sem explicação de doer. Uma dor pelo que passou ou pelo
que, talvez virá. Uma dor dos possíveis. Na realidade nos deparamos
com uma incapacidade humana e histórica de fazermos frente a dor
existencial, mítica, onirismos transcendentais. Aroldo faz correr
velozmente a caneta sobre o papel. Isso se advinha. Aqui não há
demora no tema, no detalhamento de uma imagem. Até nos dá margem
a questionar: terá Aroldo algum critério de seleção do que produz?
Sua pressa em deitar na folha achados mirabolantes, piruetas e
eloquências verbais nos lembra aqueles deleites juvenis em sermos
intencionalmente, camuflados por preciosas palavras, marlametianamente
herméticos.
Essa pressa não lhe permite, por exemplo, como Augusto dos Anjos
em versos íntimos descrever toda uma ação que, embora centrada
no presente, nos remete a um auguroso passado e futuro. Ou em
Sá Carneiro onde toda a obra é a completa descrição de um moribundo
que nos olha com olhos de crucificado.
Talvez seja leviano de minha parte dizer que a poética de Aroldo
Leão padece de metafísica em excesso. Nela tudo nos diz que o
que o homem é, luta com o que está fora dele, mas que esse 'fora'
mais parece projeções de alucinações ancestrais, carmas intransmutáveis.
Seria como numa luta de box em que, aquilo que o homem é luta
consigo mesmo, e ele, o homem, juiz, ser histórico e em carne
e osso, estivesse amarrado a uma das estacas do ringue, impotente
para interferir. O homem em Aroldo é desiludido pois se prendeu
a escavacar 'abismos' onde, é claro, só encontrou solidão.
Desnecessário dizer que isso em arte não diminui a obra. As macabras
imagens de Goya não desvalorizam sua pintura, o sem-saída de Beckte
não faz seu teatro estéril nem a maldade de Nelson Rodrigues torna
sua obra desprezível. Aqui o que vale é o "engenho e arte"
camoniano.
Sejamos sátiros, bufões e palhaços de nós mesmos. Festejar aos
berros e pinotes o estarmos nesse mundo, grande oficina para quem
se permite aprender. Aroldo parece ter forças para enfrentar os
tufões e tempestades. O mundo é uma escola, já dizia as avós,
avós, avós. Aliás, como a sentença na entrada do inferno de Dante,
há uma tabuleta na entrada para este mundo que diz, bem Gestalt:
PERMITA-SE. Aroldo Leão é um homem do excesso. Tudo nele é farto.
Muitos poemas. Muitos livros. Muitas pretensões. De longe ele
é o poeta mais ousado entre nós. Por enquanto, ao contrário de
muitos poetas comedidos que esqueceram a inscrição, ele está se
permitindo. Quando a maturidade mais forte se firmar na sua poética,
com certeza nos ofertará bandejas de suculentas iguarias, porque
cultivadas no terreno do excesso, a seu tempo.
Sebastião Simão
Maio
de 1998
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