| A Poesia de Aroldo Ferreira Lećo
Li
os livros: Harmonia Dissonante, A Manhã Vã do Amanhã,
Alfabetizando a Alma, Impactos Azuis, O Espelho dos Labirintos
e O Eco das Distâncias, que é um texto teatral. Com
tanta versatilidade, pergunto: Por que não tenta, igualmente,
o conto e o romance?! Sinto, porém, que a poesia é
a sua vocação. Há em você uma força
de expressão que não vem do mundo exterior, mas
do íntimo. E é isto a inspiração,
um raio divino que nos atinge e no qual a labareda consome toda
lembrança do mundo real, momento em que as idéias
tornam-se translúcidas e se traduzem num perfeito versejar.
Na inspiração, o que é raríssimo,
você posiciona-se contra a adiposidade verbal e aplica,
impiedoso, a elipse e o “logocídio”. Realmente,
o bom escritor, como o enxadrista, deve saber sacrificar suas
peças. É o que vejo no belo poema Intermitência:
A
intermitência dos vitrais
Ensejos redefinem plurais
Olhares atracados aos cais
Das insatisfações. Surreais
Raciocínios vêm, magistrais,
Englobando a doçura dos mais
Puros conhecimentos. Frugais
Percepções aglutinam os ais
Do mundo todo, tornam reais
Os gestos reciclados tais quais
As nobres conjunturas normais
Que nada ensinam ou dizem. Sais
Adoçam o sabor das rurais
Sensações atuais, joviais. |
O
primeiro dom a salientar-se, Aroldo, seria o de renúncia,
até certo ponto, aos outros seus dons, os de artesão,
de não haver deles abusado, de não os ter usado
sequer fora do âmbito subsidiário. No livro O Espelho
dos Labirintos você parece experimentar aquilo que Rimbaud
chamava “a alquimia do verso”, quando, ao martelar
sincronizado dos ritmos tradicionais, sucederam os “ritmos
instintivos”, fonte do verso livre que você soube
usar com tanta segurança em Alfabetizando a Alma e em A
Manhã Vã do Amanhã. Um vigilante instinto,
no entanto, livrou-o da criptografia, tão ao gosto de um
grande número de nossos atuais poetas. Há em seus
versos, por vezes, uma penumbra, mas que jamais chega à
cerração. Por isso eles superam a vida precária
da “poesia rara”, extravagante, esotérica,
própria de alguns “iniciados”. O mesmo tino,
o mesmo instinto salvou-o desses perigos e seus versos parecem
ser feitos, amiúde, com pedaços de sonho. Por vezes
rompe com a sintaxe(como o faz Juan Ramón Jiménez)
e põe as palavras em liberdade. O substantivo é
substantivo, mas também adjetivo. O verbo quase sempre
se evapora, como também os nexos conjuntivos. Você,
não há dúvida, assume esta heterodoxia típica
das escolas de vanguarda. Daí a não opção
pelo realismo e um culto à incoerência, a exploração
do material onírico, o uso de metáforas com o sentido
escamoteado. Chega, assim, a tecer belíssimos versos, como
o poema Movimentos, do livro Impactos Azuis:
Movimentos
ondulantes
Clareiam as percepções
Únicas das almas
Que compreendem
A verdade mágica
De si mesmas.
Lágrimas caem
Com uma verticalidade
Horizontalmente triste. |
*
* *
Sinto
em Petrolina, no campo literário, vive um grande momento.
Você, Aroldo, sem nenhum favor, equipara-se aos nossos grandes
poetas da atualidade. Há também aí um escritor
a quem dedico uma grande admiração: José
Américo de Lima. Sem me conhecer pessoalmente, ele me enviou
através de um comum amigo, Olímpio Bonald Neto,
um ensaio de sua autoria O Conto e seus caminhos, obra de vulto
e que se não fossem as discriminações que
sofremos por parte da mídia sulista, ele e você estariam
brilhando ao lado dos nossos melhores críticos e poetas.
Mário
Márcio
Academia Pernambucana de Letras
Olinda/PE, 2001
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