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01.A
CENA
O cenário é interessante. Com muita gente fazendo coisas
bacanas,não só em literatura como também em música,
artes plásticas, sociologia.
Primeiro, é bom que entendas o que é a minha região,
que conta comPetrolina e Juazeiro como principais cidades, divididas pelo
Rio São Franscisco, o Velho Chico. De um lado está Pernambuco,
do outro a Bahia.
Estamos na área do polígono das secas. Há algumas
cidades circunvizinhas que são importantes para o desenvolvimento
da região como Senhor do Bonfim, Curaçá,Uauá,
Casa Nova e Sobradinho na Bahia e Lagoa Grande,Santa Maria da Vitória
e Salgueiro em Pernambuco. A título de curiosidade, em Juazeiro
nasceu João Gilberto, com sua musicalidadegenial. Também
de Juazeiro é Galvão, poeta e letrista dos Novos Baianos.
Em Petrolina nasceu Geraldo Azevedo, que possui um trabalho musical na
MPB interessante. Voltando a falar do cenário poético, a
região possui uma quantidade de poetas enorme, muitos dos quais
ainda inéditos, o que não é novidade em um país
como o nosso que pouco valoriza a cultura. Há duas antologias importantes
que retratam o panorama poético da região.
Uma delas é a Poética Ribeirinha, lançada em 1998,
organizada por Elisabet Moreira, Mestre em Literatura pela USP, radicada
em Petrolina há mais de vinte anos,professora de Língua
Portuguesa do CEFET local, que traz em suas páginas, entre vivos
e mortos, uma relação de poetas bastante significativa que
fizeram poesia na região até 1995. A outra antologia, lançada
no ano passado, pela U.B.E.(União Brasileira de Escritores/Núcleo
Petrolina), foi Poetas em Rebuliço, um perfil contemporâneo
da criação poética no eixo Petrolina/Juazeiro, contando
com a participação de 33 poetas. Quando me perguntas se
há mais que Cordel na região, claro que há, sempre
houve.
Escreve-se de tudo.Crônicas, contos, romances, novelas, textos teatrais,
poemas de todos os tipos, desde versos livres até sextinas e coroas.
Rodrigo, é bom que entendas que o fato de o poeta estar no interior
do Nordeste não o deixa bitolado numa necessidade intermitente
de ter que fazer Cordel. Pelo contrário, o cenário é
de todo poeta buscar sua individualidade, sua forma melhor de se expressar,
que , na maioria das vezes, não é a do Cordel. Na região
do Sertão em que moro, que é a do pólo Juazeiro/Petrolina,
com quase 500.000 mil habitantes, é bom que se frise isso, ainda
se vê a venda de Cordéis, principalmente na Feira da Areia
Branca, uma das principais Feiras de Petrolina. Talvez onde o Cordel seja
mais lido e vendido seja mesmo na região Juazeiro do Norte/Crato,cidades
cearenses unidas à paixão pelo Padre Cícero, distantes
uns 300 quilômetros do eixo Juazeiro/Petrolina. Também na
região do Sertão do Pajeú, berço da poesia
repentista, o Cordel ainda é bastante lido,cultivado e apreciado.
O fato de fazer sonetos é que como poeta procuro sempre me cercar
do que a literatura universal deu de melhor. Então pra isso leio
Dante, Petrarca, Mallarmé, Rimbaud, Camões, Fernando Pessoa,
Mário de Sá-Carneiro, Drummond, Bandeira, Augusto dos Anjos,
Gerado Mello Mourão e até de nomes que, talvez, não
tenhas tomado contato ainda, como Rogaciano Leite(que segundo Pinto do
Monteiro, o maior repentista em todos os tempos, fazia soneto de improviso)
ou mesmo Cancão(João Batista de Siqueira), que vivendo no
Sertão do Pajeú escreveu versos tidos como clássicos
da mais alta qualidade. Todos os que te falei anteriormente compuseram
sonetos. Veja bem, todos eles, na sua grande maioria, fizeram sonetos
na forma italiana(dois quartetos e dois tercetos). Eu proponho e crio,
sem quaisquer vaidades ou sentimentalismos insossos, não só
a criação de sonetos na forma italiana, mas também
na forma espanhola(dois tercetos e dois quartetos), na forma inglesa(três
quartetos e um dístico) e também na forma que chamo de brasileira
com dois quintetos e dois dísticos ou dois sextetos e dois veros
unos. Nos meus sexto, sétimo, décimo e trigésimo
livros publiquei mais de trezentos sonetos, todos na forma italiana, onde
os coloco, metrificados de uma até doze sílabas(alexandrinos)
e também os ponho em versos livres. Brevemente, estarei publicando
sonetos na forma inglesa. Entenda bem, não é o fato de estar
"isolado", no interior do Nordeste ou qualquer outra região,
que o poeta não está sintonizado com
o mundo que o cerca e com as coisas que se engalanam por aí afora.
Sou potiguar, nascido em Parnamirim, cidade conhecida como "Trampolim
da Vitória" e já morei em diversas cidades como Natal,
Salvador, Campina Grande, Niterói, Curitiba, e toda esta bagagem,
do que vi e senti em cada uma dessas cidades, trago-a na alma e procuro
com isso crescer como gente e transformar o mundo para melhor, se ainda
for possível isso.
Tenho trabalhado muito há muito tempo. Desde 1995, quando lancei
meu primeiro livro, até agora, 2002, são trinta e três
livros lançados e participação em onze antologias
a nível nacional. Mesmo reconhecendo as inúmeras dificuldades
pelas quais passa o poeta no Brasil, desde a impressão de seu livro
até a divulgação do mesmo, acredito que venho,aos
trancos e barrancos, doidamente doído, movido pela única
vontade de contribuir de alguma forma para o engrandecimento moral e espiritual
da humanidade, alicerçando meu caminho e amadurecendo nas veredas
da poesia. Em relação a última pergunta deste tópico,
há três universidades na região Petrolina/Juazeiro.
Em Petrolina ficam a FACAPE, universidade particular, abrangendo cursos
como Contabilidade e Administração e a U.P.E(Universidade
de Pernambuco) com cursos como Letras, Matemática e Pedagogia.
Já em Juazeiro existe a U.N.E.B(Universidade do Estado da Bahia)
oferecendo, dentre outros cursos, Filosofia e Agronomia. Segundo se comenta
por aqui, a Universidade Federal do Vale do São Francisco já
possui espaço e autorização do governo federal para
funcionar, basta apenas que a coisa engrene de forma limpa e definitiva,
oferecendo um leque de cursos mais abrangente. Todas as universidades
que citei anteriormente oferecem cursos de pós-graduação
em diversas áreas,o que é interessante para a região.
AROLDO NA
NET
Cheguei a
internet, definitivamente, em 1996, mas já tinha contato com a
mesma desde 1994. Na região Petrolina/Juazeiro, atualmente, existe
apenas um provedor. É o Portal do São Francisco, com muitas
informações interessantes sobre o que acontece no chamado
Vale do São Francisco.
Neste Portal tenho uma coluna onde escrevo contos e crônicas geralmente
ligadas a essência sertaneja de ver e viver as coisas.
A DIFICULDADE
DE MORAR FORA DE UM GRANDE CENTRO
A dificuldade,
creio eu, é a de qualquer escritor, que vive no interior e está
limitado tanto em relação a distância dos grandes
centros como também a evidenciação de seu trabalho
na mídia em geral,que geralmente está presente nas capitais
do país.Há também o fato de existirem poucas gráficas,
poucos jornais, tornando ainda mais penoso a questão da edição
de um livro. Porém, como já te falei anteriormente,consegui
publicar, até agora, 33 livros, mesmo estando muitas vezes limitado
por inúmeros fatores que, talvez, inibissem qualquer poeta a buscar
não só a impressão de seu livro como também
a divulgação do mesmo. Entendo que a superação
de si mesmo, a todo instante, é um fluir necessário na alma
de qualquer poeta. Tenho vivido para a poesia esses anos todos e aprendi
que a persistência, a humildade e a vontade de ver nossa obra sendo
discutida e analisada requer paciência e muito trabalho. Às
vezes leva uma vida. Outras vezes leva um tempo bem maior.
Tantas vezes não dá em nada. Algumas vezes floresce e se
ramifica com força e sutileza. O importante é a certeza
de que demos o melhor de nós mesmos na conquista de nossos sonhos.
Fernando Pessoa no seu poema Mar Português diz "Tudo vale a
pena/Se a alma não é pequena/ Quem quer passar além
do Bojador/ Tem que ir além da dor". Penso que cabe a nós
mesmos a ampliação de nossos horizontes espirituais. Precisamos
construir, com luta e carinho, uma humanidade melhor. O tempo é
agora.
MINHA HOME
PAGE
A home-page
foi feita por Dio Fonseca, designer, que desde 1997 faz as capas e a diagramação
dos meus livros, juntamente com o webdesigner Alexandre Gonçalves,
carioca de Vila Isabel, que, por incrível que pareça, veio
morar aqui na região, desde 2000, porque conheceu uma menina de
Juazeiro via bate-papo na internet e acabou namorando e casando com ela
e, como conseguiu manter amizade com Dio, começou a trabalhar com
o mesmo. E se ficou amigo de Dio, ficou meu amigo também.
Daí surgiu a idéia da home-page. Como Alexandre já
trazia um grande conhecimento sobre o assunto acabou encontrando em Dio
uma parceria perfeita. Fiquei entusiasmado com a idéia de possuir
uma home-page onde estivesse todos os meus livros para download e também
meu CD, lançado em 2001, onde de casa mesmo o ouvinte pudesse apreciar
e verificar a qualidade musical de minha obra. Na home-page "http://www.aroldoferreiraleao.com.br/"
existem treze livros para quem tiver interesse em conhecer meu trabalho
literário. Até junho, acredito eu, já estarão
os outros vinte livros. Meu CD, intitulado Sacolejos e Manejos,contém
14 forrós, todos de minha autoria, onde procuro dar aos mesmos
uma noção mais profunda em relação ao conteúdo
poético e harmônico de cada canção. Na home-page
há uma canção, Bicho do Mato, que pode ser ouvida
no formato MP3. O Portal do São Francisco, provedor local, é
quem hospeda a mesma.
CINCO SONETOS:
"NÃO
ÉS MAIS"
(SONETO NA FORMA ITALIANA EM OITO SÍLABAS)
Não
és mais o que nunca foste.
Senta-te, acalma-te, pondera-te.
Aprende a ouvir-te, esmiuça-te,
Respira com entusiasmo.
Estás
vivo, é o que se vê, pasmo.
Então, vai, logo, aprimora-te,
Percorre teu caminho, ama-te,
Compreende o hálito do corte
Que te tornou
insano e mau,
Investiga o tom cadavérico
Das coisas fúteis, o pilhérico
Fluir das
vidas sem sentido,
A alquimia íntima do nítido
Olhar aberto ao ir da nau.
"ASSOMBRADO"
(SONETO NA FORMA ITALIANA EM VERSOS LIVRES)
Assombrado,
dividido pelo que não sabia,
Viu-se vazia
Criatura
De caricatura
Turva, curva
que se prendia
Ao caminho que só existia
Nele mesmo, bailarino
Sem pernas, pequenino
Fragmento
disperso noutros fragmentos
De elementos
Recriados na natureza dos seres mortos.
Foi impostor
de beleza insaciável,
Condutor de corrente elétrica variável,
Frio fio ligado aos sons dos portos.
"A MORTE"
(SONETO NA FORMA INGLESA DISSILÁBICO)
A morte
Te espera
Sempre. Era
A era, é
O corte
Que te une,
Corizas
Sem fé
Caindo
Em teu
Rosto. Eu
Sei, findo,
Que estás
Sem paz.
"SIGO"
(SONETO NA FORMA ESPANHOLA EM VERSOS LIVRES)
Sigo, solto
em meus deslizes,
Buscando a verdade das coisas,
A essência dos instantes que me cercam.
Minha loucura
me vê
Triste e confuso,
Menino tateando nas percepções,
Fantasma
rondando
A ancestralidade dos desatinos
Que me tornam agregado ao silêncio maior
Das almas sós.
A realidade
cansa-me,
A vida suja-me,
O tempo não me ouve, não me diz nada.
Sou a curva dos infinitos, pesada curva oca.
"ALMAS SUTIS"
(SONETO NA FORMA BRASILEIRA TETRASSILÁBICO)
Almas sutis
Sabem que estão
A todo instante
Renascendo em
Si mesmas, pálidas,
Polidas no
Acaso com
Que abraçam o
Silêncio de
Seus movimentos.
Elas percorrem
Caminhos ermos,
Querem o
amor
Justo de Deus.
Aroldo Ferreira
Leão
Aroldo Ferreira
Leão, poeta, potiguar, nasceu em Parnamirim/RN a 12 de outubro
de 1967. Desde os 15 anos de idade escreve com freqüência,
já contando com mais de 10.000 poemas escritos, que espera algum
dia possam ser avaliados e pesquisados com seriedade. É formado
em Engenharia Elétrica pela UFRN e possui pós-graduação
em Letras pela UFRJ.
Atualmente faz Mestrado em Matemática na UFBA. Começou a
publicar seus primeiros trabalhos no jornalzinho cultural Vôo Primeiro
de Uma Arribação em Natal/RN na década de 80. Possui
trinta e três livros publicados. Trinta de poesias, dois de teatro
e um de literatura infantil. Tem participação em treze antologias
a nível nacional.
Compositor, possui gravado o CD Sacolejos e Manejos com 14 forrós
de sua própria autoria, onde busca penetrar com profundidade no
universo poético-musical de suas canções. Em breve
estará lançando o CD A Poesia das Coisas, com 12 canções
também de sua autoria, no estilo MPB. Para o ano de 2002 lançará
livros de crônicas, contos e um romance denominado O Quarto de Teobaldo
onde procura a essência humana de ver, sentir e se expandir nos
instantes, nas circunstâncias. Atualmente exerce a função
de Auditor Fiscal na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia. Possui
uma home-page "http://www.aroldoferreiraleao.com.br/" onde pode
ser encontrada toda a sua obra e também biografia completa, bibliografia,
reportagens,fortuna crítica e ensaios a seu respeito.
Rodrigo de
Souza Leão
poeta, músico e jornalista
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