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ENSAIO DO POETA PERNETA
TRÊS ESTÁGIOS DA DECOMPOSIÇÃO HUMANA
I) A AUSÊNCIA
A poesia
foi isolando-o, tornando-o esquecido, insistentemente instintivo.
Ninguém o ouvia, a vida o destruía serenamente,
as coisas o viam deformado, animal de ternura quebrada. Os dias
seguiam poluindo-o espiritualmente. As ruas, encharcadas de solidão,
se enchiam de pessoas e desassossego. Ele rondava a força
misteriosa de si mesmo, se entregava a seu destino com paciência
e perseverança, acreditava que seria a luz que julgava
existir nos corações das crianças. A poesia
contaminou-o de tormentos obesos e indefesos, deixou-o, muitas
vezes, sozinho e passageiro, lágrima decadente caindo sobre
o silêncio da face acanhada. Persistiu na idéia de
criar uma obra que pudesse refleti-lo por inteiro, mas se viu
dividido demais, sobras unidas a solidão de tudo. Viveu
para encontrar-se, comunicou-se com a comunhão dos anjos,
atrapalhou-se tentando ser humilde e sincero, escorregou nas próprias
convicções, testemunhou, muito cedo, os vínculos
de humanidade que o levariam a enxergar no outro a verdade turva
de sua alma alheia a senões e canções vindos
do nada. Multiplicou-se para conceber melhor seus conceitos, porém
o mundo esmagou-o, freou-o, contaminou-o de amarguras e ranhuras
diversas, vislumbrou-o cansado, minúscula partícula
de textura escura, vocação que se projeta no infinito
buscando respostas para as coisas sem sentido, vazão de
sentimentos que se perpetuam na desilusão, conhecimento
falho tateando no silêncio divagante dos espíritos
que de tanto penetrarem em si mesmos descobriram a síntese
de suas próprias assombrações, canal aberto
para os desgostos e desarmonias. Sonhou com a perfeição,
mas não demorou muito tempo para compreender sua condição
de peremptória criatura presa a efemeridade das coisas,
dos outros e dele mesmo. Acordava, com freqüência,
bailando em interrogações distantes, sentia-se possuído
por uma vontade de íntima de transformar o mundo para melhor,
contudo perdia-se em suas ânsias atrapalhadas e apressadas,
movediça percepção induzindo-o a fragmentar-se
cada vez mais, a testemunhar-se calado e desarticulado, a somente
enxergar-se fazendo poesia e ouvindo a delicadeza dos brados encalhados
que se perderam no deslize das catacumbas e das monotonias ensandecidas.
Feriu-se, partiu-se, riu-se da vida e dos seus desenganos, refletiu-se
no acaso, uniu-se à decadência com naturalidade,
colheu, no seu eu murcho, o som do chocalho chocho, o tom do espantalho
assustado com as máscaras das caras avaras, tensão
noturna gerando uma dor impossível de conter, pretensão
tonta agregando a cor do invisível aos lampejos de inconsciência
dos desejos.
II) A SOLIDÃO
Sempre só,
sempre nada, acostumou-se com as mentiras e vaidades de seus irmãos
humanos, procurou, frenético e patético, criar e
recriar uma obra que o elevasse e o norteasse eternamente, entretanto
sua mente incoerente foi se tornando inconsistente, latente confusão
do vício imprudente que resiste ao que existe e não
existe, triste concepção da ação sem
apego nem afeto, abrigando no fundo de sua alma uma esperança
calma de pelo menos viver sossegado e antenado com o cotidiano
insano de nossos dias, frias melancolias paridas ao pulsar das
feridas diluídas no interior dessas vidas polidas com descaso,
raso conceito que de tão estreito feriu o leito das agonias
de sua fina melancolia felina, sina, que sem eixo nem eito, atingiu
o queixo e o peito do poeta pateta, profeta aperreado procurando
o lado espatifado do espírito adoentado e enfadado, desgastado
pelas idas e vindas de um mundo moribundo na essência, incongruência
alimentada de caídas e subidas abissais demais, covardia
que incendeia a areia da praia quando o sol raia ou se põe
numa luz que se impõe naturalmente, sutileza dominada por
piruetas e caretas do vate doído, estremecido ser de querer
complexo, nexo que se desfaz na paz dos pensamentos descrentes,
torrentes que se agregam às coisas que nos cegam e nos
negam sistematicamente, ousadia ímpia da valentia na via
incerta, oferta que se completa numa correta sensação
que se expande na grande constatação de que somos
húmus, engodos que com rodos passamos todas as horas. O
poeta achou-se repartindo-se, abrindo-se para as especulações
das ações duradouras, vindouras associações
ponteando-o como tesouras enferrujadas, colocando-o nas ciladas
das fadas desenganadas por suas varinhas-de-condão desgastadas,
quebradas, estilhaçadas pelo vazio vento vindo voando,
vulcão que, extinto e faminto, flui onde nunca poderia
ir, possui a magia meiga da migalha móvel que muda a vida
do mendigo, amigo sincero do descaso e dos abraços de traços
falsos, fatia fétida do filme de fôlego fumacento.
A solidão parece destruir até a morte, sorte do
consorte que com ela se descabela numa tentativa ativa de viver
um hábito herdado na híbrida homogeneidade da humanidade.
É solitária a gia e o gato que mia tentando pegá-la
e afundá-la em seu estômago como um vago bago de
laranja que se arranja num prato de um restaurante errante, distante
do paladar insular das almas de vozes atrozes. O poeta é
mais que sua própria solidão, certeza delicada que,
mesmo apagada, continua na peregrinação atrás
de respostas que nos traduzam em nossos universos imersos em laços
e encalços diversos, versos feitos no embalo dos berços
dos bebês que, mês a mês, nos mostram que o
caminho a seguir é feito de carinho e suavidade, dádiva
que agita a seiva da árvore que dá frutos a vida
inteira, certeira, clareira na cumeeira.
III) O AMOR
E assim
o amor foi recompondo-o, fincando-o nas contradições,
olhando-o com ternura e renovação, analisando-o
e conduzindo-o por trilhas duras e esquecidas, vasta situação
agregada a degredada percepção doada aos olhos como
os repolhos aos molhos azedos. Medos o cercearam e o cerraram
feito uma certeira emoção parteira dos ecos secos
que o escondiam das coisas, que o viam e o explodiam em várias
direções. Pária, vazia alma vadia, se valia
da inércia para sobreviver e resplandecer em si, queria
tudo e mudo ficava, gritava nas vísceras através
das eras com sinceras pretensões de, em minuto em minuto,
ser alguém verdadeiro, candeeiro aceso dentro das tensões
do aflito olhar maldito. O amor foi envelhecendo-o, clareando-o
mais, munindo-o com os bantos e os acalantos dos corações
cheios de espantos e enleios, veios do silêncio que invade
uma cidade percorrendo a claridade das cores e dos rumores das
casas em brasas, dos presídios, edifícios e hospícios
repletos de calafrios e insetos, dos hospitais e quintais entregues
aos ais dos sinais desiguais, das estradas dominadas por curvas
turvas, das ruas com suas esquinas de quinas pontiagudas e mudas,
dos bares com seus breus milenares. O poeta viveu o apogeu da
simplicidade, percebeu, compreendeu, que estamos isolados uns
nos outros, uns dos outros e uns para os outros. Em nós
a ganância e a violência construiu essa ânsia
que gruda em nossos espíritos como os fossos aos gritos
nunca ouvidos, repetidos até o cansaço extremo,
remo que se quebra quando nos aproximamos do cais, dura mistura
impura, vivaz, que permeia o canto da sereia de goela velha, centelha
que só brilha na bela manhã do amanhã que
jamais chegará, paz que atormentará a alma que se
buscará sempre cada vez mais, mesmo ilhada, atrapalhada
pela jornada a vencer. O amor inundou-o de contemplações,
constelações de sensações que o modificaram
interiormente, fluente atenção que o impulsionou
e o norteou para o universo dos versos, a poesia da melodia que
se associa ao ninho do passarinho que quando canta levanta uma
floresta, fresta por onde passa a liberdade da verdade até
da insanidade. O poeta, asceta perneta, percorreu caminhos sozinhos,
espaços de mormaços fortes, cortes acelerados pelos
exagerados modos de expor seus engodos e apatias, monotonias infiltradas
dentro de suas células intoxicadas de paixão. No
caixão, um dia, deixará a desunião e o desamor
de fora, tora de um pé de amora que chora, de hora em hora,
tentando enxergar na flora a luz que de todos vai embora pelos
séculos afora.
Aroldo Ferreira Leão
Juazeiro/Petrolina, 21/06/2003
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