| NECESSIDADE
DE LITERATURA(ENSAIO)
A necessidade de uma literatura cada
vez mais superior nos remete a descoberta de nós mesmos,
a uma investigação precisa de nossas decepções
e alegrias. Mas como construir os mais altos alicerces espirituais
em nossas almas se estamos rodeados por correrias e frustrações,
buzinas e sinais que nunca apontam para a verdade dos seres humanos,
anseios erguidos com a violência de um mundo onde amar o
próximo virou tolice cotidiana, banalidade que interessa
a muito poucos?! Ganhar dinheiro, urgentemente e a qualquer preço,
tornou-se a coisa mais importante de nossa era de tecnologia avançada
e de espíritos desevoluídos, engatinhando em suas
convicções frágeis e inseguras. No entanto,
vivendo e nos recriando a cada instante, mesmo sendo tragados
por um sistema que não nos permite sonhar, nem mesmo com
nossas esperanças mais tênues, seguimos melhorando
e, ao esperar que os outros também progridam, enchemos
nosso coração de luz e nos perpetuamos no tempo
tal qual o mágico para sua platéia comovida com
a beleza do encanto. A literatura, como qualquer outra espécie
de arte, exige paciência, pesquisa, solidão, contemplação,
humildade, silêncio, vontade de expressar o que sentimos
com as mãos limpas e plurais, prontas para empurrarem a
humanidade para uma situação melhor, plena de sabedoria
e amor. Nela o saber esperar é fundamental. Mesmo que sejamos
apressados, angustiados, assustados, confusos como este nosso
próprio tempo, a literatura, por sua vez, vem como quiser,
pois ela é senhora de si mesma, escolhe seus escolhidos
como Cristo a seus apóstolos porque assim se faz necessário,
porque assim são os mistérios de Deus. A literatura
nos torna melhores porque através da leitura entramos em
comunhão com a síntese dos tempos que nos geraram
em quem somos e nos fundamentaram em nossas atitudes mais sinceras.
Através dos grandes mestres vamos aprendendo a criar e
a trilhar com mais segurança nossos caminhos com os vocábulos.
Ler Virgílio, Dante, Petrarca, Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé,
Hesse, Goethe, Shakespeare, Elliot, Camões, Fernando Pessoa,
Edgar Allan Poe, Ezra Pound e tantos outros é participar,
com grande carinho e satisfação, do que de melhor
a literatura concedeu em todos os tempos, é iniciar em
nós mesmos uma aventura no reino das palavras com a cabeça
erguida e o coração sem máculas, pronto para
explorar os segredos que cada escritor traz dentro de si e a medida
em que escreve vai revelando para todos suas mais íntimas
convicções. O talento literário é
o talento da lapidação, da busca, do começar
sempre, da capacidade de enxergar com astúcia o lema de
Sócrates, que após ser escolhido pela Sacerdotisa
de Delphos como o homem mais sábio de seu tempo, pensou
que só poderia ser porque “só sei que nada
sei”, revelando em suas palavras uma alta humildade, própria
das grandes almas dispostas a acordarem o mundo de um sono milenar
de vaidades e ganâncias desenfreadas. O sonho da literatura
é o sonho da verdade, do desejo da construção
de um universo mais habitável, feliz contemplação
do silêncio cansado dos ocasos. Nos dias atuais, a literatura,
mesmo pisada e esquecida, continua firme em seu propósito
de revelar segredos e de engrandecer os espíritos que,
do fundo de suas almas, almejam se reencontrarem com a vida, a
mesma vida ancestral que nos determina em tudo e que nos leva
pelo mundo com a certeza de que renascemos em cada verso que criamos,
em cada sentido que plantamos no tempo.
Aroldo Ferreira Leão
Petrolina/Morro do Chapéu, 18/06/2002
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