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LITERATURA POPULAR E O SEU ECO, QUASE MUDO, QUASE CEGO, NO EIXO
JUAZEIRO/PETROLINA
I) INTRODUÇÃO
A Literatura Popular muito tem contribuído
para a percepção do homem das coisas que o envolvem
e das histórias e estórias que o norteiam ao longo
de sua própria existência. Estudos a seu respeito
sempre existiram, poucos, mas retratando, de alguma forma, uma
espécie de Literatura que no Brasil há muito tempo
desperta, de maneira tímida, a atenção dos
estudiosos de Literatura em geral dos grandes centros do país.
É evidente que a falta de Editoras na região nordeste,
que trabalhem mais o lado da divulgação e distribuição
das obras, unido ao nosso próprio descaso com nossas tradições
e verdades, nos tira a possibilidade de não mergulharmos
em um universo repleto de sutilezas e belezas, autêntica
seara de encantos, concepção clara de um canto que
nos delimita em nós mesmos, afobados indivíduos
correndo de um lado para outro sem saber quem são e nem
o querem deste mundo e de si mesmos. Muito poderíamos nos
deter sobre assuntos que são pertinentes ao da Literatura
Popular, contribuirmos, verdadeiramente, para um maior entendimento
de como a mesma se enraizou no Sertão do Vale do Pajeú,
principalmente, e se espalhou, depois, pelo nordeste e o Brasil
afora, sempre mantendo uma coerência de pluralidades. Para
quem se aproxima da Literatura Popular é bom ter em mente
que, como qualquer outra Literatura ou espécie de arte,
ela também possui os seus mestres, que contribuíram
decisivamente para o fortalecimento e condensação
das muitas idéias que fluíram ao longo do tempo
e moldaram essa forma de expressão na fenomenologia daquilo
que trazemos de melhor em nós mesmos: O amor, o sonho,
a esperança, a virtude. Nomes como Inácio da Catingueira,
Pinto do Monteiro, Antônio Marinho, Louro do Pajeú(Lourival
Batista, irmão de outros dois cantadores de respeito, Dimas
Batista e Otacílo Batista), Job Patriota, Manoel Xudu,
Zé Limeira, Sebastião Dias, Manoel Filó,
Oliveira de Panelas, Ivanildo Vila Nova, todos eles e tantos outros,
arquitetaram e solidificaram tanto as concepções
estéticas que permeiam a Literatura Popular como também
divulgaram como ninguém a magia de uma Literatura que encantou
desde Luís da Câmara Cascudo, que escreveu “Vaqueiros
e Cantadores”, um importante livro sobre o folclore poético
do sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do
Norte e Ceará até o estudioso francês, da
Sourbonne, Raymond Cantel.
II) DIVISÃO DA LITERATURA POPULAR
A Literatura Popular, em
suas várias vertentes, pode ser traduzida, de início,
a partir dos violeiros-repentistas, fantásticas criaturas
que se utilizando de uma linguagem trovadoresca, típica
da Idade Média, tanto na questão da viola quanto
na concepção estética, criam e recriam, em
mais de trinta e seis estilos diferentes, das sextilhas ao galope
à beira mar, dos moirões à parcela, uma teia
de idéias criadas com originalidade e rapidez, dinâmica
espiritual da sensibilidade que se reflete em pensamentos aguçados
a respeito da realidade humana e de tudo que nos retrata no universo.
Como exemplo de versos de violeiros-repentistas podemos destacar
uma sextilha de Pinto Monteiro, que para muitos amantes e estudiosos
do repente, foi o maior repentista que já apareceu:
“ E Eu sou como
o lacrau
Que do lixo se aproxima
Se alimenta sugando
A umidade do clima
Doido que um caipora
Chegue e bote o pé em cima” |
Reparar
que na sextilha de Pinto, rica de poesia, lúcida e matreira,
como o próprio poeta, se mantém a forma mais comum
de se cantar o repente com seis versos heptassilábicos(sete
sílabas) rimados na 2ª, 4ª e 6ª linhas.
Um outro exemplo interessante é o de uma sextilha de Antônio
Marinho, outro gigante do mundo do repente, que numa cantoria,
a pedido de um neto que queria homenagear o avô, seu Domingos,
falou ao poeta que o mesmo tinha 80 anos e 4 meses e no mesmo
instante recebeu a pérola:
“Eu comparo seu
Domingos
Ao forte dos Holandeses
Num parece mas tem quase
Minha idade duas vezes
Por já contar novecentos
E sessenta e quatro meses” |
Notar, que
neste verso espetacular, o poeta fez rapidamente a conversão
para meses da idade de seu Domingos que com 80 anos e 4 meses
deveria ter então
80X12 meses mais os 4 meses, ou seja, exatamente, 964 meses, que
se encaixaram perfeitamente na métrica e na disposição
da sextilha criada por Antônio Marinho. Uma beleza, apenas
demonstrando a força criativa e surpreendente que habita
o violeiro-repentista.
A outra ramificação da Literatura Popular é
a da Literatura de Cordel, com os seus folhetos que narram desde
estórias de brigas em feiras-livres ou mesmo entre famílias,
casamentos desfeitos ao pé-do-altar, namoros que terminaram
com defloramentos das virgens, até sagas impressionantes
como a estória da chegada de Lampião no Inferno
desbancando do trono o próprio Satanás. É
de se salientar que nesta forma de expressão, na maioria
das vezes, existe a composição de versos em sextilhas
heptassilábicas. No entanto também se encontram
muitos cordéis escritos em outras formas que também
engrandecem enormemente a textura de versos nesta composição.
Como exemplo de Literatura de Cordel temos os versos de Leandro
Gomes de Barros, nascido em Pombal, na Paraíba, que em
um cordel escreveu:
“Meus versos
inda são do tempo
Que as coisas eram de graça
Pano medido por vara
Terra medida por braça
E um cabelo de barba
Era uma letra na praça. |
Perceber
que nos versos anteriores as rimas continuam nas linhas pares,
mas é de se frisar que o poeta foi mais além pondo
na 3ª e 5ª linhas rimas que se mantêm nos dois
às, no caso as palavras “vara” e “barba”.
É intessante notar que mesmo dentro da Literatura Popular
há uma Literatura Clássica com ritmo próprio
e visão das mais encantadoras, o que não é
novidade neste mundo de poetas fabulosos, sempre obedecendo, a
criação, aos mesmos critérios de estética
da Literatura Popular com versos, na maioria das vezes, heptassilábicos
ou decassilábicos heróicos. Nela, normalmente, o
uso do soneto, na forma italiana, com dois quartetos e dois tercetos,
se faz inteiramente representado como no exemplo a seguir, extraído
do livro Meu Lugarejo de João Batista de Siqueira, o Cancão:
“Aquela rolinha
do meu sombrião
Sem o seu ninho seu primeiro leito
Já chorou tanto que feriu o peito
Sem saber dos filhos, do lugar que estão.
Percorre às
vezes toda a vastidão
Volta de novo a reparar direito
De galho em galho a espreitar com jeito
Procura ainda, mas procura em vão.
Assim a pobre e infeliz
rolinha
Levando as horas a gemer sozinha
Eriça as penas, depois as sacode.
Ela não chora
porque não tem pranto
Se tivesse pranto choraria tanto
Mas sem Ter pranto quer chorar não pode.”
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Neste poema
de Cancão, formidável, como tudo que esse mestre
escreveu, revela-se, de forma impressionante, o domínio
da forma clássica de escrita do soneto. Tal qual Petrarca,
Cancão desenvolve seu tema com extrema delicadeza e força,
característica comum em todos os seus versos. Reparar que
os versos deste soneto são decassilábicos heróicos,
exatamente a métrica que o violeiro-repentista se utiliza
para, por exemplo, cantar o Martelo Agalopado, criação
do poeta paraibano Silvino Pirauá Lima, que consiste numa
estrofe de dez versos ou dez pés, todos em decassílabo
heróico, ou seja, com a colocação das tônicas
obrigatoriamente no sexto e décimo versos.
Há ainda uma vertente interessante dentro da Literatura
Popular que é o chamado “Poeta de Bancada”
que com criações, na maioria das vezes cômicas,
retrata o cotidiano do nosso povo de maneira sutil sempre obedecendo,
como já dissemos nas outras formas, às concepções
estéticas dos versos em sete ou dez sílabas. Um
exemplo típico do “Poeta de Bancada” é
o de Chico Pedrosa, poeta do Vale do Pajeú, que muito tem
contribuído para o engrandecimento e difusão da
Literatura Popular pelo Brasil afora. Como exemplo de concepção
da criação do “poeta de bancada” veja-se
a linda décima de Chico Pedrosa Deve-se notar, então,
que unindo os violeiros-repentistas, os poetas criadores da Literatura
de Cordel, os poetas clássicos dentro do mundo da Literatura
Popular e os chamados “Poetas de Bancada”,
temos a maravilhosa expansão e decodificação
da Literatura Popular, abrangente como o olhar de Job Patriota
sobre si mesmo:
“Tristeza, dor,
alegria
É tudo do mesmo tanto
Felicidade completa
Só existe em quem é santo
Que em cada gole de riso
Há cem mil doses de pranto” |
III) A LITERATURA POPULAR
NO EIXO JUAZEIRO/PETROLINA
Na região do Vale
do São Francisco compreendida por Juazeiro e Petrolina,
especificamente, a Literatura Popular tem se mantido ou sobrevivido
de duas formas, basicamente. Nas feiras-livres, principalmente
na feira da Areia Branca, em Petrolina, ainda se vê a venda
de folhetos de cordel. Já na tradição dos
violeiros, há a realização de um Congresso
Anual, geralmente nas dependências do Teatro do Dom Bosco,
como também a realização durante o ano de
algumas cantorias que são promovidas em Petrolina por dois
grandes apologistas, vindos do mundo poético do Vale do
Pajeú, que são Maurício Menezes e Isnário.
O fato é que em Petrolina existe um determinado grupo de
pessoas vindas da região do Vale do Pajeú, que pelo
amor ao repente e ao cordel, criaram vínculos da mais alta
generosidade com tudo que se refere a Literatura Popular. E é
basicamente com essas pessoas e com os apaixonados, que vez por
outra aparecem, seja de Juazeiro ou Petrolina ou de qualquer cidade
circunvizinha, que a Literatura Popular vai ganhando respaldo
dentro do eixo Juazeiro/Petrolina. Falta uma maior tradição,
uma necessidade de transbordar em nossas almas, através
da lucidez contundente dos versos dos cantadores, a harmonia da
poesia que nos agrega à vida e a nós mesmos. No
entanto, ainda se pode mudar essa situação. Nas
universidades, principalmente nas Faculdades de Letras, deveria
se estudar com mais profundidade tudo o que se referisse ao mundo
da Literatura Popular. O aluno teria de ser estimulado a pesquisar,
a escrever ensaios sobre o assunto, realizar entrevistas com pessoas
que tenham ligação com o mundo da Literatura Popular,
tudo isso sabendo, de antemão, que ele está tratando
de um tema que é seu, que o circunda com a luminosidade
das noites em que o universo nos olha com atenção
e vivacidade, nos impulsionando para a melhoria de nossos interiores,
quase sempre angustiados e sem paz, motivados pela correria de
um mundo que esqueceu que só valorizando nossas tradições
estaremos em sintonia com tudo que nos cerca e nos traduz em quaisquer
essências. As Prefeituras das duas cidades e os empresários
poderiam ajudar trazendo os cantadores para abrilhantar determinados
eventos nas cidades. Muita coisa poderia ser pensada se nós
sentássemos e discutíssemos com carinho tudo o que
pode ser feito pela Literatura Popular no Eixo Juazeiro/Petrolina.
IV) CONCLUSÃO
Na Literatura Popular o mais
importante é que saibamos tratá-la e evidenciá-la
com respeito e sinceridade, pois é nela, que há
mais de um século, verificamos a incidência de uma
poesia que, a cada dia que passa, fica mais forte e conectada
com os desesperos do mundo como a fome, falta de saúde
e educação das pessoas, a miséria, a violência.
Uma Literatura que também é a alegria do povo com
suas cômicas mentiras e verdades que espalham graça
e suavidade no coração de uma gente que aprendeu
a amar seu solo ressequido com a mesma paixão que ama um
filho ou as mais frágeis certezas que traz dentro de si.
A Literatura Popular representa grandeza, alvissareira constatação
de que a poesia sobrevive e se entrega, se doa e se complementa,
na troca de encantamentos seja entre o violeiro-repentista com
o povo o escutando ou com as outras formas de Literatura Popular
que se utilizam da escrita e que ajudam o povo a manter um contato
maior com a língua portuguesa, um contato de pureza, do
mais fino amor com um idioma que vem sendo americanizado sem piedade,
achincalhado em sua própria casa por seres que não
compreendem que amando nossas tradições e valorizando
nossa forma de ser que iremos construir um país melhor,
nação onde o olhar espiritual de cada um de nós
aprendesse a amar desce cedo nossas árvores, pássaros,
crianças, velhos, doentes, estradas, monumentos, estórias,
histórias, rios, lagos, montanhas. A Literatura Popular
nos ensina que é das coisas simples que a vida
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