A ALMA DE GÊNESIS
Diante de um mundo tão conturbado
quanto o nosso, de correrias e ânsias intensas, de vidas
embaralhadas em seus próprios conflitos, de desejos que
nos movimentam ao encontro de outros desejos sujos e sem sentido:
Eis o poeta, aguerrido e aflito, buscando-se, tateando-se no
silêncio desse mesmo mundo barulhento e espiritualmente
frágil, confuso espetáculo onde a platéia
mal sabe o que quer, mal se digere, mal se entende, fragmentada,
moída continuamente, movida a modismos passageiros e
a mídias que não educam nem retratam a realidade
doída e alienada de nosso país. Mas o poeta sobrevive
a impactos e temores, trafega nos próprios medos olhando
a vida com sinceridade, preocupando-se com a justiça
entre os homens, eterno visionário antenado com as expectativas
e verdades de seu povo. Neste primeiro livro do poeta Gênesis
Naum a poesia é intensa e visceral tais quais sua juventude
e pensamento. O próprio título do livro Alma das
Ruas já é bastante poético e deixa no leitor
uma forte presença de beleza e entusiasmo para depara-se
com os poemas que compõem a obra. Todos os poemas do
livro são interessantes e isso já é bastante
significativo para um poeta jovem como Gênesis. Há
poemas maravilhosos como “O Sapateiro” onde Gênesis
diz: [Pescador de silêncios/A mascar sossegadamente/Seus
vícios] ou “O Anjo do Concerto” que tem a
beleza dos versos: [O anjo, sem explicação, era/Um
homem atormentado]. Nos poemas “Aos amores Perdidos”,
“Noite”, “Casa de Ferro”, “Amostra
Cega” e “Tensão Flutuante” temos uma
versatilidade de ritmo criativo bastante contundente. Já
em “Solidão” existem versos sutis como [Que
o crepúsculo/Faça de suas tardes/Solitárias/O
silêncio brotar]. O poema “Desuso” é
excelente com versos como [Vivo em desuso/Na cumplicidade do
existir/Já acabrunhado da desilusão]. No poema
“Alucinações” Gênesis reflete
em dois versos a verdade maior do poeta: [No errante pastorear
das palavras,/Oscilante de amargura]. Também expressivo
são os versos de “A Dama da Pobreza” soltos
[No imigrante gemido/De sua eternidade vazia]. Em “Versos
Íntimos”, título numa clara alusão
ao poema de Augusto dos Anjos, que é um soneto com todos
os seus versos em decassílabo heróico, Gênesis
recria, mesmo em versos livres, uma amplitude que muito faz
recordar a belíssima expressividade do poeta paraibano.
É de se esperar então do poeta Gênesis Naum,
de agora em diante, sempre uma maior investigação
de si mesmo, um contato muito mais profundo com o seu interior
para extrair dele mais e mais poemas e nos brindar com seu movimento
criativo sempre com sutileza e essência. É de se
esperar também paciência e humildade para compreender
com perseverança os desassossegos do mundo e sentir que
a vida prossegue e muito temos de melhorar como pessoas, como
animais domesticados na escuridão das coisas.
Aroldo Ferreira Leão
Petrolina, Dezembro de 2001