A IDÉIA
DA LAVRA NA ODISSÉIA DA PALAVRA
O
tempo, que nos conduz pelas vielas estreitas e compridas de
nossos destinos, nos traz, além das incertezas, um certo
teor de esperanças em tudo que fazemos na vida. Nossos
atos estão unidos sempre a nossos sonhos de construirmos,
com nossas vontades e descobertas, um mundo em que vivamos,
julgamos nós, uma pluralidade profunda de sentimentos
e pensamentos. Daí que a luminosidade de quem faz poesia,
ou qualquer tipo de arte, e procura expandi-la, mostrando seu
talento, com garra e luta assíduos, correndo de um lado
para outro, sem titubear, sem evocar lamentos costumeiros, com
perseverança e entusiasmo, procurando divulgar seu trabalho
sem medo dos eventuais agoureiros de plantão, como está
acontecendo, agora, com Uberdan, através de seu livro
“A Odisséia da Palavra”, possibilita investigarmos
com mais carinho toda a sua obra exposta desde sonetos, como
é o caso do poema que dá título ao livro
e outros como “Da liberdade”, “Sorte”,
“Sombras” e “Redenção”,
passando pela prosa poética em “Tudo e Nada”
e “Réquiem Para um Pós-Tudo”. A grande
parte dos poemas apresentados no livro é constituída
de estrofes em versos livres, na maioria das vezes, prazerosa
de ler. Há os que chamo de poemas fundamentais, que devem
ser lidos sempre, e que retratam, com mais clareza, a força
da poesia de Uberdan, que são “Nossos Dias”,
“Presa da Pressa”, “Aurora”, “Alucinação”,
“Nervocidade”, “Cantar” e “Ritual
Antropofágico”, que precisa ser lido com atenção
e lucidez. Em poemas como “Ansiedade” encontramos
verdades interessantes como [O que fazer/Com essa vontade/Normalmente
louca/Da mastigar as paredes]; Já em H2O tem-se a beleza
do verso [Talvez a água seja/O espírito visível
da Terra]; Em “Pós-Moderno” o poeta traz
a sutileza dos versos [Pois o ser/Que sonha/Não escala
segredos,/Modifica/o futuro.]; “Sub Sub” é
um canto consciente e maduro a respeito das crianças
de rua, marginalizadas, miseráveis, além de uma
cutucada política muito bem direcionada no final do poema
em relação a tantos impostos que pagamos e não
vemos o retorno dos mesmos em quase nada. Em “Metáfora”
ele fala com maturidade [Só quem sente a dor/É
que sabe a dor/Que sente] e completa [Só quem sente/É
que sabe a dor/Que agente sente]. No longo poema “Procissão
das Horas”, interessante em seu ritmo de versos curtos,
há sentenças formidáveis como [Por quantas
eternidades/Vou curtir o prazer de me enganar] ou [Mas minha
redenção/É mesmo um querer/ Que não
encara/A cara da verdade]. Acredito que um poeta jovem como
Uberdan Oliveira, com grande potencial poético, e, o
que é mais importante, aberto e disposto a aprender mais,
seja lendo, ouvindo ou decodificando em si mesmo, os sinais
da mais alta poesia nos brindará, num futuro não
muito distante, com uma nova safra de poemas ainda mais fortes
e contundentes, pois, reconhecidamente, sua alma passeia, vagueia,
esperneia dentro do subterrâneo das coisas. Num de seus
poemas, intitulado “Poetas”, que bem poderia ser
aplicado a qualquer artista que fundamenta sua vida na aspiração
da prática de uma arte mais elevada, Uberdan diz [Cavaleiros
da tormenta/Eles só querem cavalgar] e sedimenta [Percorrer
novos caminhos/Sem vontade de voltar]. Pois bem, que este cavalgar,
este percorrer novos caminhos, façam parte de sua trajetória,
o encorajem a buscar na própria vida os reflexos de uma
poesia cada vez melhor. Uberdan é poeta de futuro, no
presente. Sua poesia é para o presente, no futuro.
Aroldo Ferreira Leão
Juazeiro, 19/08/2001