O TOM DO
SOM NA POESIA DE JAMESSON
Desde
a publicação de seu primeiro livro, “Os
Delírios”, o poeta Jamesson Buarque continua construindo,
com extrema perspicácia, um universo de versos que nos
traduzem sempre na incerteza doída, espremida, poluída
de nós mesmos. Criador de singularidades, como mostraremos
ao longo deste texto, ele vem expandindo determinadas características
de sutilezas no poema que muito se aproximam do canto vigoroso
de um Gerardo Mello Mourão. Haja fôlego e haja
vontade para isso. Agora, neste seu novo livro, “Novíssimo
Testamento”, dividido em três partes e cada parte
devidamente fragmentada em itens, tem-se uma viagem interessante
através da percepção concisa das coisas.
Particularmente, acredito que o poeta fragmentando o texto tornou-o
mais lúdico e lúcido, urdido de pretensões
humanas, olhar coeso ecoando em suas próprias entranhas.
Cabe ao leitor penetrar com entusiasmo e vivacidade no âmago
do conteúdo que o poeta procura exprimir. Poesia é
som que só pode ser ouvido em silêncio, uma solidão
que compreende outras solidões, um metabolismo que gera
na alma a percepção serena de nossos degredos
e mentiras. Poesia é verdade, Jamesson sabe disso, suave
constatação de que a vida é sempre muito
mais, caminho que só se percorre por amor. Na primeira
parte do livro, intitulada “Emmanuel Nazaré Ou
o tecelão de parábolas”, temos a divisão
da mesma em três itens com visões poéticas
intercalando-se em cada uma delas com clareza e harmonia. Versos
como [O sonho é uma rede de mitos cegos a cantar] ou
[Sobretudo em sua voz, uma flor e talvez espinhos completando-O]
nos trazem à alma uma percepção interessante
da poesia de/em Jamesson. Ah, ainda estamos no primeiro item
que se prolongando ainda vai revelar versos decassilábicos
heróicos de aguda concepção como [Sequer
uma parábola profunda / Multiplica a visão quando
desértica], [Gestante do vazio, maltrapilho: / Seleção
social doada aos vermes] e [A guerra, o interlúdio e
a mimese / Seguirão Sua voz quando for éter].
No segundo item, “Evolução do mito”,
a difusão épica do mesmo impressiona com versos
livres intercalados com versos pentassilábicos que nos
deixam entregues ao fascínio de versos, que como diz
Mário Quintana, “não há uma vírgula
que não seja uma confissão” : [Ele lança
uma semente na Terra e fecunda um jardim], [Um dia que foi ausência],
[Ele quer queimar / Como sendo líquido] e [A noite continua
descendo/ Agora uma fome pretensa de fazer tudo quedar desértico].
Vejamos que logo em seguida, no terceiro item, “Sedimentação
do mito”, acontece a sedimentação do próprio
Jamesson Buarque num canto que, se prestarmos atenção,
traduz o poeta e o seu “Emmanuel Nazaré”
num mistério que os integra firmemente. Goethe afirma
que poesia é “a fala do infalível”.
Jamesson filtra isso em versos como [Oh, consolo de barriga
cheia de vermes] e, muito lembrando Fernando Pessoa em “Mar
Portuguez”: [ Sabe-se que a dor vale a pena/ Que serve
a comunhão do sangue/ Convertido suor na ausência
da carne]. Reparar que a forma pentassilábica retorna
com mais vigor e mais descritiva em versos como [Sem lapso,
a guerra / Não contém artérias], [ Há
na guerra, eterna / Alguma memória], [Ele sim é
a dúvida / Que povoa o Tempo / Em todo lugar]. Já
no final do item, e conseqüentemente da primeira parte,
a poesia nos atraca ao cais de nossas incertas desventuras,
nos une ainda mais ao Emmanuel Nazaré que nos olha e
nos indaga a respeito de nossas atrapalhadas sensações
sem sentido. Nos versos [ Ai seja palavra de eu ensinar a verdade
certa / Permitindo que de paz toda via seja aberta] e [ Sejam
para mim o futuro de minhas parábolas / Fecundadas como
um testamento sacrossanto] percebe-se o tom intimista de Jamesson
com a poesia, concepção que o atrela ao fechamento
desta primeira parte do livro com a beleza do verso: [ Porque
eu teço parábolas como o perdão me tece].
Trocando parábolas por versos, logo sentimos que o poeta
aí falou mais alto, pois falou de si mesmo revelando
humildade e sabedoria em suas palavras tal qual, agora, o Homem
de Nazaré. Já em “Tomé da Luzia Ou
a morte começa pelos olhos”, que é a segunda
parte, há a divisão em seis itens de elementos
que procuram identificar o próprio poeta com a verdade
que habita as coisas. Assim como escreveu Fernando Pessoa “Que
para ser grande/ Sê inteiro” o Tomé de Jamesson
é uma figura de silêncio fecundante e abrangente.
Em versos do primeiro item confirma-se isso: [Seu nome não
sabe onde encontrá-lo: / Se na foz de algum rio/ Se na
voz de algum menino]. Seguindo temos: [Entretanto em seu nome
não há ruído / Nem estrondeia nele o mínimo
barulho, / Que seu nome é de silêncio: / Sofre
mudo no absurdo]. Percebe-se, então, no prolongamento
do poema, um ciclo de versos totalmente voltado para a realidade
humana, suja e leviana, que muito recorda o canto agoureiro
do corvo de Edgar Allan Poe, dizendo sem parar para o próprio
Jamesson: [Sofre mudo no absurdo], [Sofre cego no absurdo],
[Sofre surdo no absurdo]. No segundo item, que acredito ser
o mais poético, tem-se o achado: [Os santos às
vezes anjos são crianças de bunda de fora]. Durante
todo esse item há um cavalgar preciso da “Definição
do Santo” com versos que confirmam o Tomé-gente,
espelho dos fantasmas de si mesmo, como [E é certo que
Tomé morre/ (porque ele não é deus)]. No
entanto, a força maior está no verso: [Tímida
é a ousadia na escuridão] que retrata um Tomé-homem
embaralhado com essa nossa existência de senões
e contradições sempre contundentes. No terceiro
item se encontram conceitos para nos irmanarmos: [Morrer é
destino do santo], [Os olhos de Tomé são pedras
acesas / De ignorar um deus se não o vêem] e [De
onde brotam cantos silenciosos / O silêncio atravessa
a escuridão]. Sinto que, a partir daqui, o canto épico
de Jamesson se consolida de uma forma mais justa no espírito,
recria um teor de poesia maior em cada verso que escreve. No
quarto item, há realmente uma “Figuração
de graça”, um estado de harmonia nos versos hexassilábicos
[Seguir e dizer sim / E arrepender-se após / Arfando
solidão / Pelos dias de outrora] e termina tal item com
a preciosidade [Que a morte chega sempre pelos olhos]. Nos itens
finais, quinto e sexto, é importante frisar-se que o
poeta mantém a unicidade de suas idéias e explora
com precisão o ritmo de seus versos, uma autêntica
“viagem ao desconhecido” relembrando aqui Maiakóvsky.
Ainda no quinto item há uma verdade que contempla os
homens atuais: [E o deus não desperta/ E eu sou agonia].
Continuando ele afirma que essa agonia transforma-se em consciência
[Porque há em seus olhos verdade]. Finalizando, no sexto
item, é útil se chamar a atenção
do leitor quando o poeta fala que [Se meus olhos me permitissem
/ cantar a composição da noite / Eu não
veria a escuridão] e completa [ Dize a minha casa que
estou chegando / Para ela me sorrir um sorriso antecipado].
Vislumbro neste novo livro do poeta Jamesson Buarque a conquista
de novos espaços em seu próprio ser desmembrando
o texto em diversas vertentes que correm, de imediato, para
sua própria alma tornando seus versos em “palavras
olhando para si mesmas” como afirmou um dia Cecília
Meireles ao definir poesia. Prosseguindo, em “Amada Helena
ou O juízo e o pecado”, última parte do
livro, no primeiro item há um soneto decassilábico
heróico de onde se lêem versos sutis como [O engano
que repousa nas palavras] ou [E meu sonho é agulha num
palheiro, / Como mudar o pulso dos relógios?]. Vivenciando
ainda o primeiro item, temos a confirmação de
seu desencanto diante das coisas no verso [A dor é essa
presença de tudo] e , no final, destilando com presença
marcante: [E na cabeça de baú dos poetas- / Sempre
sofridos de tudo / Ou alegres de nada.]. No segundo item, “A
transição”, o poeta de um jeito preciso
mostra mais uma vez sua agucidade com [O silêncio não
dá/ Vez, / Titubeia na escuridão] registrando
um momento mágico de beleza nos trazendo à mente
“O choro da energia abandonada” de Augusto dos Anjos.
Daí em diante tem-se um canto de fôlego e harmonia
densos, traduzindo a navegação de Jamesson na
rota sagrada de suas próprias assombrações.
Em “O pecado”, temos o último item e o final
do livro. Versos longos se dispõem num texto avassalador.
Lê-lo pausadamente e em comunhão com nossas angústias
nos traz um reflexo interior do mundo que nos cerca, violento
e barulhento, rugido de uma porta velha que nos abre para nossas
mais fundas sensações. A dicção
dos versos prende o leitor por um raciocínio de fecundidade
expansiva que lembra Walt Withman. Entenda o leitor, urgentemente
e em silêncio, que a poesia de Jamesson é adulta
e profunda, basta relê-lo com paciência que se enxerga
isso, sem receios e tormentos tão presentes em nossos
cotidianos de pouca leitura e nenhuma contemplação.
Deve-se notar também que tanto em “Emmanuel Nazaré”,
“Tomé da Luzia” e “Amada Helena”,
o mais importante é verificar que o poeta conseguiu que
os textos que compõem cada uma das partes possam, individualmente,
representar essas mesmas partes. Tarefa meticulosa e sábia
que dá a poesia de Jamesson Buarque uma força
que o recria na sua própria juventude. O tempo, senhor
de mistérios delineados na morte, dirá se o poeta
sobreviverá aos impactos de insensibilidade do mundo.
Jamesson estará no futuro, tenho certeza, criando versos
ainda melhores e, sem nenhuma dúvida, emitindo opiniões
que possam tornar o universo literário de todos nós
mais humano e inteligente.
Aroldo
Ferreira Leão
Petrolina/PE, Julho de 2002