O
BAILADO ALADO DO EMPREGADO DO TEMPO
A
poesia, com seus mistérios miraculosos, nos mantém
atados à beleza das descobertas, busca a sutileza das
coisas, recria-se em nossos segredos mais sagrados. Burilando-nos,
compreendendo-nos, incitando-nos a uma investigação
maior sobre tudo que nos cerca, ela nos distribui nas incertezas,
nos traz de volta essências esquecidas, nos conduz por
ecos e becos antigos. Acredito que em seu livro de estréia,
Empregado do Tempo, o poeta Nílson Júnior revela,
através de versos concisos, corrosivos, incisivos, explosivos,
uma teia de pressentimentos e indagações que o
colocam frente a frente com suas inquietações
e percepções. É interessante se notar,
na obra do poeta, a presença vigorosa de poemas longos,
muito aproximando-o, em estilo e sedimentação
do ritmo, da poesia de um Afonso Romano de Sant’anna ou
de um Soares Feitosa, sem medos ou falseamentos tolos, como
acontece nos poemas “Esperança”, “A
Dança”, “Cordão de Prata”, “Polícia”,
“Traduzir-se”, “O Mar”, “Os Convivas”,
“Face”, “Serenidade”, “Face”,
“Instante”, “Tédio” e “Guerra”.
Chamo a atenção do leitor para o que há
de beleza nestes cantos extensos. Em “Esperança”
ele afirma: [Fomos à lua? Conhecemos o próximo?]
, [Não sei em que terra piso, / Mas quero meu descanso]
ou [Não nos conhecemos/ Por isso nos enterramos todos
os dias]. Já na “Dança”, cuja estrofe
final é reluzente, vê-se que [Minha alma jovem
não quer descanso] e em “Traduzir-se” tem-se
um poema de um fôlego só, numa única estrofe,
abrangente, pois, como diz o poeta, [Meus poemas são
diálogos com Deus/ E Deus me ouve quieto e sempre]. A
questão da ancestralidade, forte em seus versos, revela
um Nílson Júnior que interage com seu passado
com uma lucidez não soez. Isso acontece, por exemplo,
no poema “Mar” onde o poeta diz: [Me lembro da alegria
azul/ Dos falecidos parentes/ De minha imaginação].
No poema “Serenidade”, que muito lembra um poema
escrito por Carlos Drummond de Andrade para seu neto Luís
Maurício, em Fazendeiro do Ar, livro publicado em 1954,
Nílson dialoga com seu sobrinho num canto de profundidade
e ternura exalando em seus versos coisas como [Deves notar que
não há hora nem dia./ O que temos, em verdade,
são dúvidas e enganos] e, no final do poema, escreve:
[Conheço os versos, mas desconheço a própria
face minha./ Os diamantes estão sujos e os campos dormem/
Teu sono veludo]. Relembro, então, que, numa das passagens
mais bonitas do poema de Drummond, o mesmo escreve para o neto:
[verás que há veludo nos ursos]. Reparar que a
palavra “veludo” une os dois poetas de forma belíssima.
Coincidência?! Mais que isso. Nílson é poeta,
e basta. Determinados poemas ao longo de Empregado do tempo
são reflexivos e gozam de um enxugamento nas palavras
que surpreende como acontece em "Crônica”,
“Mãe”, “Prisão Mental”,
“Alívio de um Condenado(1)” e “Alívio
de um Condenado(2). Em relação às formas
tradicionais, o poeta traz um soneto, na forma italiana, com
dois quartetos e dois tercetos, em versos livres, intitulado
“Soneto da Desistência”, interessante em seu
conteúdo e com rimas, da segunda estrofe em diante, na
maioria das vezes, não convencionais. Neste soneto o
poeta é firme e ruge: [Na casa nada há, velho
amigo/ Este soneto perdido sequer existe, aflito,]. É
de fundamental importância se entender que Nílson
Júnior, em determinados poemas, transcende e se figura
como um poeta de visceralidade contundente como acontece na
criação dos belíssimos versos de “Em
que Tarde”, “Memória”, “Facadas”,
“Face”, “Exatidão”, “O
Dia” e “Tédio”. Neste último,
por sinal, há construções encantadoras
como [A realidade que faz brotar/ Dum mundo pútrido outro
mundo/ Onde os pés descalços tocam sons/ Que vêm
do nada/ E vão a lugar nenhum]. A poesia, com seus movimentos
silenciosos, nos leva por caminhos onde os olhos do tempo nos
abrem para a verdade de nossas almas, vidros quebrados num quarto
escuro e sem chão. Nílson capta, com perspicácia,
o sentido de espiritualidade dos momentos que nos unem ao rugido
atemporal dos dias que se vão em nós como as horas
nos relógios de ponteiros parados. Sinta-se, por exemplo,
que, em “Bilhete de Paz”, o poeta flui em si mesmo
visto que [Enterrar o melhor convite/ Calcular feridas/ Parir
nossas asas de fogo] nos leva a um diálogo com nossas
gestações mais divididas, compridas. Já
em “Combustão”, Nílson afirma que
[Os pássaros ladrilham os passos do vento] e em “Construções”
há a precisão e maturidade do verso: [Vossa casa
esconde o labirinto do mundo]. No poema “O Pasto do Menino”
os versos se diluem e nos agregam a uma visualização
maior de nossa infância e de nosso mundo, quase sempre
angustiado e apressado: [Nos dedos do menino/ E nas unhas do
menino/ Entranha-se o barro/ E a terra suja dos atalhos]. A
poesia em Nílson flutua pregando-o ao contexto de seus
poemas com as mãos serenas de suas próprias ânsias,
ante um mundo decadente e sem sensibilidade, sabendo sempre
que “a dor da força desaproveitada”, como
diria Augusto dos Anjos, está em todos e em tudo passeia,
“não sei se dura ou caroável”, ao
som dos versos ungidos de poesia, quem sabe, de um Manoel Bandeira.
Nílson compreende que o caminho para uma poesia sempre
mais elevada é longo e íngreme, demora, canção
doída ecoando no coração dos homens sublimes,
vontade que cisca no risco daqueles indivíduos que abraçam
a vida com a alma entregue à ressurreição
de si mesmos. Nílson tem nas mãos o futuro que
ele vem plantando no solo de suas vivências.
Aroldo
Ferreira Leão
Petrolina/PE, Setembro de 2002