| MANOEL DAS
ALMAS
Manoel das almas, habitante do distrito de Canções,
pertencente à escondida cidade de Queimadas, na parte nordeste
do sertão baiano, foi um coveiro singular. Para cada morto
interpretava uma canção de ninar. Cantava com desenvoltura
e ainda batia no corpo fazendo o acompanhamento. "Dorme neném
que a noite já vem..."!! Alguns parentes da vítima
riam, outros, enfurecidos, procuravam calá-lo, repreendendo-o
com beliscões e até mesmo pancadas mais doídas.
Manoel, que já havia sido cantor de uma banda local, nunca
se desprendeu totalmente da música. Adorava o batuque de
sambas sincopados e, de vez em quando, lá estava ele sobre
uma cova, batendo nas lápides e criando alguma melodia.
Seus temas eram sempre alegres, festivos, em nada lembravam o
tom melancólico do espaço que o envolvia. Mesmo
quando estava enterrando algum morto a pá batia no chão
de uma forma diferente, geralmente ritmada, cheia de criatividade,
derramando o barro triste do cemitério sobre o corpo estirado
do defunto, ali no caixão, calado e triste, interpretando
a música comprida da morte. Manoel, que geralmente reclamava
a falta de mais mortos no distrito de Canções, gostava
do que fazia. Sentia uma grande satisfação ao ver
qualquer defunto entrando em seu cemitério, principalmente
quando era algum político, pois o cortejo fúnebre
atraía uma grande multidão, deixando-o mais a vontade
para desempenhar seu papel de coveiro-cantador, singularidade
que o tornava a figura mais conhecida em sua região. Organizado
e meticuloso, anotava num caderno velho, de folhas amarelecidas
pelo tempo, o dia da morte de cada indivíduo que chegava
para ser enterrado, a cor do caixão e ainda descrevia o
semblante de algumas pessoas que, desoladas, abandonavam seus
parentes ou amigos ao gosto da terra que agora os devorava silenciosamente.
Manoel, que era das almas, porque gostava de conviver com elas,
ouvi-las, tocá-las com a humildade dos homens que sabem
que estão neste mundo de passagem, seguindo numa grande
viagem em busca da verdade de si mesmos. Estava sempre pronto
para enterrar quem quer que fosse, de dia ou de noite, chovendo
ou fazendo sol. Muitas vezes deixava de almoçar ou jantar,
só para abrir uma cova que, segundo ele, engoliria o corpo
de mais um cristão que se despedia deste mundo, nevoento
e agourento. Manoel, magro, tísica criatura envolvida com
o tom esquelético de si mesma, parou de cantar no dia em
que falaram da morte de sua mãe. A notícia pegou-o
ainda cantarolando o samba "Refém da Solidão"
de Paulo César Pinheiro e Baden Powell. Mexia com os lábios
de tal forma que um não tocava no outro, matreira evolução
de um coveiro que aprendeu a amar e a valorizar a vida tateando
nas incertezas e nos mistérios da morte, namorava o perfume
sorumbático do cemitério sentindo a força
das coisas que em nós estão perdidas, vivia a plenitude
dos momentos em que estamos envolvidos por nossos sentimentos
mais íntimos. Quando Cizino, velho amigo de olhar pálido
e distante, contou que sua mãe, que já estava há
muito tempo adoentada, não resistiu mais e veio a falecer,
Manoel chorou como quem sente dentro de si que lhe arrancaram
algum órgão. Soluçava, não dizia uma
palavra. Os olhos vermelhos e descoloridos denunciavam a presença
da ausência em seu espírito. Enterrou a mãe
sem cantar nada. No dia seguinte, distante de tudo estava, filosofava,
bailava em suas interrogações com muita discrição.
Deixou de ser coveiro, entregou-se inteiramente à música,
sua grande razão de estar vivo. Suas músicas passaram
a ser reflexivas, tristes, mais intimistas. Manoel morreu com
a humildade no coração, certo de que tudo é
transitório, que muito precisamos aprender e evoluir.
Aroldo Ferreira
Leão
Petrolina, 02/02/2002
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