| JOÃO
DA SILVA
João da Silva, que vivia
no município de Canudos, próximo a cidade de Euclides
da Cunha, no alto sertão baiano, se apaixonou por uma mulher
banguela, de traços finos e comoventes, de fala mansa e
altiva, que mal sabia dançar forró e só vivia
com o terço na mão, pra lá e pra cá,
rezando em velório, batizado, casamento e até mesmo
em festas. A moça falava da vinda de Cristo, num galopar
de trombetas e anjos celestiais, numa mística percepção
que transformaria todo o mundo num berço de ternura e paz.
Utilizava sempre, com uma voz rouca e gaguejante, argumentações
esquizofrênicas e sofridas, possuía uma oratória
que arrancava lágrimas das faces marcadas pelo descaso
e pela dureza de um lugar abandonado por tudo. João a amou
com tanta intensidade que no mesmo instante teve febre e diarréia,
vomitou seus desejos carnais no silêncio de sua fria solidão
sertaneja. Não sabia como conversar com aquela moça
de boca murcha e desajeitada, o que dizer para alguém que
ele aprendeu a gostar com o mesmo carinho com que olhava para
um pé de umbuzeiro ou para o infinito ensolarado das tardes
na sua cidade. Pensou logo em melhorar seu linguajar aprendendo
a ler no colégio local com a professora Dona Mundica que,
paciente e pesarosa, ensinava com rara habilidade a alunos de
todas as idades a desvendarem os mistérios da língua
portuguesa. Todos aprendiam a ler com Dona Mundica e com ele,
certamente, não seria diferente. Teria assim mais argumentos
e palavras para conquistar seu grande amor e definitivamente viver
uma vida feliz e serena. Em pouco tempo, conseguiu soletrar certos
vocábulos e já se entusiasmava com a possibilidade
de escrever uma carta de amor para aquela pessoa que marcou sua
forma de ser e de agir, que colocou em seu coração
a meiguice plural das noites solitárias do sertão,
a beleza dos espíritos que se expandem nos movimentos dos
atos mais humanos. Porém os dias, os meses, os anos foram
se passando e João da Silva, mesmo naquele município
habitado por tão pouca gente, não conseguia sequer
trocar uma palavra com sua amada. Quando a via rezando ou pregando,
perdia as forças, a língua endurecia, a boca entortava
ora para o lado direito, ora para o lado esquerdo, a visão
escurecia, o mundo começava a rodar, as pernas tremiam
e somente paravam quando a moça falava que já estava
indo embora. Os amigos tentavam ajudá-lo, mas diziam que
o seu bem querer nunca deu trela pra ninguém, jamais ousou
namorar alguma alma penada daqueles confins, daquela terra, quente
e triste, como os dias em que somos tragados por nossas angústias
e medos mais íntimos. Certo dia João foi encontrado
morto, boiando no Açude Cocorobó. Todos viram que
na noite do dia anterior ele, que não era de beber, encheu
a cara com aguardente e, cambaleando, saiu pelas ruas da cidade
testemunhando seu amor por aquela donzela, parando de casa em
casa, e, num tom de ânsia e desgosto, explicando a quem
queria lhe escutar seu imenso amor por alguém que nunca
chegou a ouvir o que ele tinha para lhe dizer. No final da noite
após encontrar seu amor saindo de uma novena da casa de
Seu Toinho, olhou-a com bastante carinho e disse: Saiba que eu
sempre te amei, que daria o melhor de mim para te ver sempre feliz!!
Mas a vida é ingrata e cheia de mistérios. E sem
que a mulher dissesse uma palavra, pois estava admirada com o
que ouvia, completou: Adeus amor, parto com teu rosto e tua voz
em meu espírito!! Todos pensavam que ele fosse para casa,
visto que estava bêbado demais até para ficar em
pé. Mas qual não foi a surpresa quando pela manhã
a notícia de sua morte correu pela cidade. Sua amada, no
velório, observando o bailar das velas e das faces que
contemplavam João, não rezou, não falou uma
palavra. Acompanhou o féretro em silêncio, como que
amargurada. Seu Toinho disse que a viu beijando o túmulo
de João. Dias depois estava louca, mal comia, mal dormia.
Dizia palavras sem nexo, falava constantemente de um amor que
deixou de viver e ficou para trás. Queria ir embora daquele
lugar, queria fugir. Todos riam dela, zombavam de suas atitudes
incoerentes. Seu nome: Maria Amélia. Maria Doida, como
ficou conhecida, viveu até os dias de sua velhice uma vontade
de compartilhar seus sentimentos com alguém, um desejo
de mostrar que precisamos nos ouvir mais, prestar mais atenção
uns nos outros. Porém louca morreu e com ela o sertão
ganhou mais encanto e desolação.
Aroldo Ferreira Leão
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