| UM
IMPASSE
Há
um impasse nos aniquilando, nos roubando a paz e trazendo angústias
disformes e perturbadoras. Este impasse é o medo. Temos
medo de tudo. Do futuro, que ainda nem chegou, de arriscar qualquer
coisa em qualquer tempo, de amar os mais fracos, de esperar pelo
sonho que ainda não chegou, de testemunhar em tudo a luz
humilde dos corações plurais, de procurar em nossas
próprias inquietações respostas para os impulsos
da alma que busca, sozinha, explicações que a coloquem
no patamar sereno das intuições suaves. Estamos,
a cada dia que passa, nos modelando nas nossas próprias
fraquezas, nos dispersando nos entraves de uma vida que tira o
sossego dos homens justos deste planeta, seres dispersos nas injustiças
e violências de um sistema que esquece de oferecer apoio
na hora em que mais se precisa dele. Mas o que esperar de espíritos
tão frágeis como nós?! Nosso descaso com
a verdade é assustador, matamos o que há de elevado
em nossas almas e depois saímos rastejando atrás
de uma elevação espiritual que nunca possuiremos
e que, por incrível que pareça, nos modelará
em todas as circunstâncias pelas quais iremos nos defrontar
pela vida afora. Não estamos prontos para correr riscos,
aliás, nunca estivemos. Quem está imbuído
de seus objetivos transpõe caos alheios e próprios,
imagina e acrescenta em sua mente a vitalidade surpreendente dos
raciocínios que se agregam a outros raciocínios
marcados pela solidez de seus atos. Nossos medos nos ajuntam e
nos dispersam com uma facilidade doentia, nos solidificam na passividade
de um mundo que ainda não aprendeu a amar e compreender
as diferenças que cada um carrega dentro de si, um mundo
dividido e escuro, cheio de atemporalidades, recheado de momentos
mentirosos que vão, mesmo assim, nos transformando, nos
modelando nas situações, nos redescobrindo nas obviedades
dos cotidianos que muito mais confundem do que esclarecem os fatos
de nossas vidas serem tão más, rudes e escatológicas.
Precisamos melhorar, urgentemente necessitamos nos reconstruir
no que restou de nossas esperanças. Nos falta e nos sobra
tudo, temos uma eternidade pela frente, mas precisamos limpar
a sujeira ancestral de nós mesmos.
Aroldo Ferreira Leão
Petrolina, 12/11/99
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