| NAVEGAS
Navegas,
às cegas, sem paz, por espirituais mares milenares. Tens
tons escuros na alma, futuros de calma errante, desgastante. Velhas
centelhas brilham, trilham em teu caminho tão sozinho,
porém bem são. Quem és tu, nu, rés,
vivo de desarmonia e monotonia?! O crivo da dor pregado em teu
coração alado, confunde-te, pune-te. Na cor dos
arco-íris vis está o que há de luz no forte
corte que te induz a procurar no olhar divagante a confiante ação
delirante. Poeta, asceta da astúcia explosiva, atleta da
angústia corrosiva, seta de fúria incisiva, meta
de azia construtiva: O que pensas, o que condensas lá no
fundo imundo, à esmo, de ti mesmo?! Aqui, ali, acolá
serás o fugaz medo azedo, trazes na algibeira a maneira
de sermos eficazes seres cujos deveres, não sujos, trarão
a noção exata da grata satisfação
unida a tímida ação de um indivíduo
inócuo. De galho em galho, falho, pulas e pululas o destino
sem tino que te move, locomove, como indivíduo, no árduo
descontentamento do cotidiano, de ano-a-ano, de dia-a-dia, na
correria inglória das avenidas entristecidas, divididas
pelo noturno apelo soturno das cidades sem claridades. Tua cara
é a máscara de um palhaço que canta e se
espanta com o traço sereno do escaleno triângulo
sem ângulo que representa a sedenta raça humana,
esta imodesta traça insana que destrói a beleza
da verdade, a certeza que constrói nossos esforços
e nos impulsiona para a rara zona de sutileza de toda destreza
que acomoda e poda a delicadeza.
Aroldo Ferreira
Leão Petrolina, 03/11/98
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